
"Há que dizer-se das coisas o somenos que elas são.
Se for um copo é um copo se for um cão é um cão.
Mas quando o copo se parte e quando o cão faz ão ão?
Então o copo é um caco e um cão não passa dum cão.
Quatro cacos são um copo quatro latidos um cão.
Mas se forem de vidraça e logo forem janela?
Mas se forem de pirraça e logo forem cadela?
E se o copo for rachado?E se o cão não tiver dono?
Não é um copo é um gato não é um cão é um chato que nos interrompe o sono.
E se o chato não for chato e apenas cão sem coleira?
E se o copo for de sopa?
Não é um copo é um prato não é um cão é literato que anda sem eira nem beira e não ganha para a roupa.
E se o prato for de merda e o literato de esquerda?
Parte-se o prato que é caco mata-se o vate que é cão e escreveremos então
parte prato sape gato vai-te vate foge cão.
Assim se chamam as coisas pelos nomes que elas são."
Ary dos Santos

2 comentários:
olá!!
gosto tanto deste texto... a fotografia está fabulosa, como a anterior...!! gosto d vir cá espreitar...
Sim que é um texto muito lindo este do Ary do santos. Escutei-o pela primeira vez no “Bó”, esse ex. espaço da nossa cidade que tão importante foi para mim na “idade do armário”. Reencontrei o autor e o texto na cidade do Porto, uns anos mais tarde, no bar “Pinguim”. Quanto à foto é o manípulo da porta de entrada de uma casa de aldeia, da minha saudosa avó Isabel. A foto de baixo é o pormenor da sua roca de fiar lã, bordada a ponta de canivete por um pastor/artista.
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